À deriva na Ilha dos Lobos

 

Tão logo me mudei para Santa Catarina, em 1988, devo ter rodado milhares de quilômetros já logo no primeiro ano procurando uma onda diferente em cada cantinho.Este estado abençoado é assim mesmo, são praias e mais praias, enseadas, baías, costões voltados para a face Norte, Sul… Enfim, só não surfa quem não quer mesmo. Sempre tem um balanço e um vento terral em alguma praia. Depois de ter feito muitos amigos e conhecidos e me apresentado como fotógrafo de surf, logo as barcas foram surgindo.

Em 1989, Netão, manager da equipe Mormaii, arrumou uma viagem para um lugar até então desconhecido, uma tal de Ilha dos Lobos, bem na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, na cidade de Torres. Eu tinha minha querida Kombi, carro-casa que me levava pra todos os cantos, então minha hospedagem já estava garantida. Como não havia internet, previsão de ondas, a busca era no faro mesmo. Saímos em mais de dois carros com uma galera, entre eles um dos melhores competidores que o Brasil já teve: Luis Neguinho e Joca Júnior, que na época era Júnior mesmo, além de Luciano Oliveira, David Husadel, Elliseu Coelho, o fotógrafo Iran Garcia, além do Netão.

 A chegada foi tranquila e tudo estava esquematizado para sairmos numa traineira na manhã do dia seguinte até a tal da ilha. Já na noite anterior, era um tal de fala daqui, fala dali e toda aquela expectativa. Pudemos ver no final de tarde que o mar estava realmente grande. 

Tão logo acordei dentro de minha Kombosa, chequei as condições e o mar estava ainda maior,  gigantesco! Ressaca daquelas! 

O pessoal estava no apê do Eliseu Coelho, que na época trabalhava na revista Inside. Todos ficaram na maior adrena quando viram as séries quebrando muitas dezenas de metros mar adentro. Depois de um breve café da manhã, corremos para o rio Mampituba, de onde iríamos sair. O pessoal do barco esboçou uma recusa para não ir, pois até no canal dos molhes estava quebrando onda. Mas sabe como surfista é teimoso, né? 

Quando vi, estávamos todos dentro daquela enorme traineira balançando de um lado para o outro, subindo e descendo por entre as enormes vagas oceânicas. Além de ter levado todo meu equipamento fotográfico, coloquei minha Summer Birds 6’4” para se desse, fazer alguns drops também. Não demorou muito e lá estávamos defronte daqueles rochedos com muitos leões-marinhos, um forte cheiro animal e ondas literalmente “animais” quebrando numa rasa bancada de pedra. 

O capitão ancorou um pouco longe, pois estava uma aproximação com nosso barco daquelas ondas mutantes era muito perigosa! Também não demorou muito para alguns começarem a marear de tanto que o barco adernava e o jeito foi pular dentro d’água sem nem mesmo olharmos direito as séries que vinham em intervalos muito próximos.Seria impraticável fazer alguma foto àquela distância e balançando daquele  jeito e tão pouco queria colocar minha bílis para fora!

 Fui o último a chegar no outside e não acreditei no que estava vendo. Nunca tinha visto nada nem parecido com aquilo no Brasil! Lulú, de backside, e David estavam representando Santa Catarina no melhor estilo e fiquei impressionado com a coragem e disposição deles. Pergunta se eu fui até o drop da onda. Não mesmo! Não era para mim aquele mar e resolvi ficar mais pro inside. Foi quando veio uma montanha d’ água em minha direção. Passei por pouco e vi mais uma vindo com chances de um bom drop. Minha prancha era pequena para aquelas condições, mas eu tinha que ao menos pegar uma onda.

 Foi só o tempo de remar com força e sair desgarrando de borda até a base. Completei o drop e saí  em disparada, mais fugindo do que surfando aquela aberração líquida. Quando vi, estava algumas dezenas de metros mais perto do barco e já me dei por satisfeito.Pouco mais de uma hora se passou e todos foram retornando. Eu nem tinha subido ainda pois sabia que iria marear forte e então, quando nosso último integrante voltou, coloquei meus pés naquele “joão sorrisão”.

 Todos à bordo? Perguntou nosso capitão. Sim, gritou o Netão.

Então era só ligar o motor e… nada… estávamos com o eixo de hélice avariado e com a âncora recolhida e já em águas profundas. Estávamos à deriva! Pelo rádio tentávamos chamar ajuda, mas ninguém sairia até ali, de um porto seguro para se arriscar a naufragar conosco. Começamos realmente a nos preocupar e imagniar o pior quando, como que por um milagre mesmo, passadas algumas horas que pareciam dias, avistamos outra traineira. Com muita dificuldade e num verdadeiro espírito de amizade, nosso “anjo da guarda”, jogou um cabo para nos rebocar.

O dia já ia bem tarde, mas ainda claro, e então começamos a jornada de retorno. Até que tudo ia bem, mais tranqüilos vendo os prédios e a cidade de Torres à nossa frente, não fosse… as ondas enormes, agora com a maré seca, estourando e lavando os molhes! 

Teríamos que passar ilesos pelo canal do rio Mampituba se quiséssemos mesmo ancorar seguros no cais. Mas não era o que nos parecia possível. Depois de estudar uma estratégia de entrada no canal, entre uma série e outra, descontando a distância do cabo e o curto intervalo das ondas, ainda tínhamos que “calcular” a correnteza que poderia nos espatifar nos molhes, a poucos metros da praia. Mas o tempo passava e tínhamos que tentar de qualquer jeito.  Foi então que vimos uma chançe se abrir e seguimos seguros!

 Será? Ao olhar atrás de nós, vimos uma massa  líquida se levantar e, numa manobra arriscada, nossa traineira foi violentamente arrastada pela outra que quase não consegue fugir daquela onda traiçoeira. Nisso, uma multidão já se aglomerava nos molhes, esperando o desfecho daquela verdadeira epopéia. Eu procurava segurança nos olhos de algum companheiro, mas apenas via insegurança e temor. Assim foi com mais uma tentativa, também em vão, apenas um pouco menos perigosa! Seria a próxima e definitiva ou então tentaríamos passar uma noite no alto-mar. Aquilo nos desesperou e logo alguns começaram a se lançar ao mar com suas pranchas.  Eu não tive tempo nem de pensar direito e creio que já estava mesmo em pânico. Foi menos de um segundo e estava remando naquele caldeirão de águas revoltas.

Ao menos estava com minha prancha e me sentia mais à vontade. Um a um fomos saindo, literalmente cuspidos daquele mar, tomando séries e mais séries na cabeça até nossos pés tocarem a terra firme.Mas e nossa traineira? Foi apenas o tempo de ver mais uma série varrendo e as duas traineiras praticamente entrarem no canal surfando uma onda enorme, uma direita que quase as jogou de encontro às pedras afiadas.

 Aquela multidão então aplaudiu de pé nossos heróicos capitães que não abandonaram seus barcos e quem vejo lá dentro? Não eram Lulu e David Huzadel? Não me recordo de quem mais de nossa galera estava ali dentro, mas sei que o que importa é que ninguém se feriu, nenhuma traineira se perdeu e saímos ilesos para uma rodada de pizza, regada a muita adrenalina! 

Na vida também é assim. As tempestades podem muitas vezes assolar nossas vidas, mas como é bom encontrarmos um porto seguro, ou melhor, o “porto seguro”. Obrigado, Senhor!!! 

Ah, sem contar que no dia seguinte surfamos ondas internacionais entre os molhes, um verdadeiro point-break.

Aloha,

Motaury

One Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *